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Saudade

Foi num dia de primavera. Enquanto eu observava o amanhecer ela chegou. Entrou silenciosamente pela porta e sentou-se. Já se passara um bom tempo desde a sua chegada quando finalmente a notei.

Demorei a acostumar-me com a sua presença e quando o fiz, começamos a falar. Ela me contou o motivo da sua vinda. Eu disse que já esperava a sua chegada, já que os últimos acontecimentos e a passagem tão rápida do tempo já se mostravam como um prenúncio.

– Você chegou cedo.

-Não, minha cara, já era tempo.

-Já? Ouvir isso me causa certo temor.

– Não se preocupe, não pretendo me demorar.

– Não?

Ela me explicou o porquê. Ninguém a chama, ninguém quer sua presença, sua chegada. Mas ela vem. Vem às vezes sem motivo, vem trazida pelas circunstâncias, vem de repente. Vem porque é preciso. É preciso entender, superar e só depois que ela vai embora, é preciso lembrar. Lembrar-se de tudo e com carinho, pois é isso que ela provoca.

E ela veio. Veio devagar e aos poucos e será minha companheira por um bom tempo, apesar de ter dito que não iria demorar a partir. Ela não pretendia ficar por tanto tempo, mas forço-a a ficar, tudo ao meu redor força meu inconsciente a pedir sua estadia. E ela aceita, e fica, e me faz companhia.

-Você sabe que não costumo ficar pra sempre, certo?

-Sei, mas agora não é possível que você vá.

-Não, não é…

-Posso te pedir uma coisa?

-O que quiser.

-Deixe a luz acesa quando sair.

Havia um garoto

Havia um garoto chamado Harry. Havia eu, uma menina de sete anos, que só estava à procura de mais uma história para ouvir como tantas outras. Ele acabara de descobrir que era, sempre fora, um bruxo. Eu acabara de descobrir que essa não era mais uma história para ouvir como tantas outras.

Naquela tarde em meados de novembro do ano de 2001, eu saí de uma sala de cinema com um turbilhão de pensamentos sobre um universo maravilhoso até então desconhecido, e um convite. Um convite para acreditar nele.

Nas semanas seguintes eu acordei todos os dias à espera de uma coruja que iria trazer meu passaporte para esse universo: a carta de Hogwarts. Para mim, tudo era tão real e perfeitamente possível. Já não havia dúvida: eu aceitara aquele convite.

O tempo passou e eu finalmente entendi que o verdadeiro passaporte não se tratava de uma carta. O passaporte estava dentro de mim, na minha capacidade de acreditar e de me identificar com todo esse mundo, que estava tão perto e tão longe, ao mesmo tempo.

Dez anos depois, eu me vi saindo de uma sala de cinema novamente. Por fora, uma garota de dezessete anos, mas por dentro aquela mesma garotinha de sete anos de idade, que se tornara capaz de acreditar. E não só isso. Ela se tornara capaz de aprender o significado de valores como amizade, lealdade, coragem e tantos outros, de um modo que jamais seria possível vivendo apenas no mundo “real”.

De fato, não era uma história para ouvir como tantas outras. Árdua tarefa seria a de apenas ouvir, sem sentir, sem se envolver. Não era apenas uma história. Era outro mundo no qual, por vezes, eu optei viver.

Havia um garoto chamado Harry. Havia eu. Havia uma mulher chamada Joanne, que ao invés de passar a vida remoendo seus traumas de infância decidiu transformá-los e aplicá-los na criação de um universo paralelo capaz de distribuir esperança a crianças pelo mundo todo. E a mim também.

 

Nunca entendi porém sempre tentei. Agora, simplesmente desisto também de tentar.
Há aqui algum problema? Não, tudo é só uma questão de opinião. Apesar disso, não posso negar que uma inversão ou simplesmente uma mudança brusca e repentina de valores está acontecendo em um tempo e espaço em que sou capaz de presenciar de fato o foco das ações. Mas é aí que a única linha de pensamento capaz de explicar o ocorrido escapa pelas minhas mãos e deixa de me pertencer. Já não entendo mais.
E assim, de repente mesmo, completos estranhos passam a se tratar com intimidade e logo depois já são estranhos novamente. Pessoas conhecidas passam a ser irreconhecíveis e logo depois, já podemos reconhecê-las mais uma vez.
Vejo os cenários desmontando, as alegorias caindo, tudo troca de lugar, tudo some.
Não sei mais onde estou nem tampouco quem me cerca. Aliás, sei muito bem onde estou só não me sinto mais como parte desse espaço, desse momento.

Repito que não entendo, mas sei de tudo. E entender é diferente de saber, diferente demais. Sei de cada detalhe, cada fato e, principalmente, cada motivo. Sei de tudo, mas finjo não saber. Assim, ainda consigo me divertir com as manobras forçadas que todos insistem em fazer, pensando enganar a todos nesse cenário patético e montado, planejado. Enganam a todos, menos a mim. O meu fingido não saber é que os induz a pensar que nada é tudo o que eu sei.

Passara sua vida toda cruzando aquele cômodo diariamente. Aquele cômodo onde ficava aquele velho quadro, que um dia havia sido considerado moderno para a época, mas que hoje, não passava de um conjunto de pinceladas escuras em uma tela desgastada pelo tempo.

Ela cruzava o cômodo todo dia e, por isso, conhecia o quadro melhor do que conhecia a si mesma: a posição e o tom de cada rabisco que um dia o pintor preguiçosamente se deu ao trabalho de posicionar. Ela sabia qual era sua interpretação, ou pelo menos, a interpretação que ela fazia da obra e que, na sua concepção, julgava correta.

Ela o conhecia tão bem que podia reproduzi-lo. Podia mas não o fazia, pois não queria estragar sua beleza com erros bobos que pudesse cometer e nem tampouco a sintonia que existia entre os dois. Até que um dia, alguém tomou coragem e o fez: o quadro havia sido reproduzido. Antes fosse esse fato todo o ocorrido.

Um dia, ao cruzar o cômodo, se deparou com algo diferente: a cópia produzida estava lá, no lugar onde costumava encontrar o velho quadro. Como ela sabia a diferença? Simplesmente, de uma hora para outra, não era mais capaz de compreendê-lo, justamente por se tratar de uma cópia, ou seja, de não conter a essência da qual tanto gostava, a essência pela qual se sentia comovida.

E todos os rabiscos começaram a se contradizer, não faziam mais sentido, de modo que precisavam de uma nova interpretação. E foi o que ela fez. Sentou-se a sua frente e começou a estabelecer significados, mas, quando terminou, sentiu evaporar algo que, de certo modo, ainda ligava-a até mesmo à cópia. Simplesmente não havia mais nada.

Sentiu que não havia mais sentido em manter ali, no cômodo que cruzava todos os dias, algo que não mais reconhecia. Tirou o quadro da parede e substituiu-o por um novo. Uma tela em branco para que a cada dia pudesse imaginar uma interpretação diferente, todas distintas daquela atribuída ao velho quadro com rabiscos em tons escuros.

Demorou a acostumar-se, de modo que durante os primeiros dias ainda visitava o quarto escuro onde havia guardado o velho quadro que costumava conhecer, mas aos poucos percebeu que, juntos, não possuíam mais nenhuma ligação a não ser as memórias que ela ainda guardava e que, de fato, não queria esquecer. Decidiu deixa-lo ali, guardado e saiu, pronta para interpretar outros milhares de quadros que ainda haveria de encontrar.

(Não sei bem se gostei. A idéia apareceu do nada e foi influenciada por outros textos que andei lendo. De certo modo, acho que até faz algum sentido para mim, mas provavelmente pra você, que acabou de ler, isso não passa de uma história sem ínicio, meio, fim ou significado.)

É o começo e é também o fim. É o fim e é também o começo. O começo do resto e o fim de tudo.

O fim de tudo que eu adotei como o conceito de mundo nos últimos sete anos da minha vida. O começo de algo que ainda não conheço.

E então começam os discursos, as dúvidas, a indecisão e, enfim, a certeza.

 O fim ainda não chegou, mas sei que ele vai chegar. Nada é para sempre, nem mesmo a velha rotina cansada que eu julgava infinita. E então começa a pressão, as decisões e o foco. Total e completo em um único objetivo.

É isso! É o início do fim e o começo do resto das nossas vidas.

Ano novo, vida nova, layout novo. Fazia um tempinho que eu já estava cansada do layout antigo do blog e no fim de 2010 decidi que isso era uma das coisas que queria mudar.

O tempo passou e nenhuma mudança ocorreu devido à falta de ideias, até que elas surgiram no final de janeiro.

Eu queria um tema mais calmo, que não tivesse tantas cores fortes (tá, elas nem eram tão fortes assim) como o tema anterior. Então, no final das férias, eu fiz uma viagem à fazenda do meu avô, no interior de São Paulo, e lá, eu tirei muuitas fotos de paisagens que eu queria transformar em banner.

Voltando pra São Paulo, fiz uma seleção entre todas as fotos que eu havia tirado e decidi que a nova “cara” do blog seria essa foto que vocês estão vendo, a das folhinhas.

Mudar é sempre bom, principalmente quando já estamos cansados, mas relembrar boas recordações é quase tão bom quanto mudar, por isso, aqui vai uma foto para relembrar o layout que serviu de “rosto” para esse blog desde sua criação:

Começou. Na verdade, parece que nunca teve um fim. Depois de sete anos convivendo com –praticamente- as mesmas pessoas, você acaba por perder a noção de tempo. A noção de começos e fins, onde se localiza da linha tênue, formada por um ou dois meses, que delimita o fim de um ano e o início do outro.

Último ano de colégio. Preenchi muito tempo desses sete anos sonhando com isso, fazendo idealizações. De certa forma, agora que cheguei aqui, meu sonho não é mais esse. Agora, sonho com algo maior.

Agora não tenho mais tempo de idealizar nada, pois meu sonho tornou-se realidade, tornou-se o presente, o aqui, o agora. Paro de idealizar e começo a viver. Sim, viver. Viver do modo como sempre vivi, porém com mais intensidade. Quero ter tempo para saborear cada tipo de emoção que somente as experiências que viverei este ano serão capazes de me dar.

Não me arrependo de nada, nadinha, apesar de saber que, eu poderia ter feito mais, vivido mais, sem me preocupar tanto em sonhar, em idealizar o fim.

Percebo que esse arrependimento que não habita o meu corpo, minha mente, meu coração, habita o de outros com quem convivo. De certa forma parecem estar usando todo o seu tempo para viver. Não para viver o presente, mas para viver o passado, e esse é o maior sinal de seu arrependimento. Eles parecem querer provar que tudo o que fizeram não foi em vão, querem compensar o tempo perdido.

O que quero saber é: porque só agora? Por que só agora notar as pessoas que há anos fazem parte do seu cotidiano, mas com quem você nunca falou? Por que só agora fazer um discurso sobre união, se essa nunca existiu, se nunca ninguém se esforçou para mantê-la? Meus caros, não há como mudar o passado. E por que só tomar consciência disso agora?